Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança esta análise de A Investigação Póstuma, jogo indie brasileiro inspirado em Memórias Póstumas de Brás Cubas e outros livros de Machado de Assis.
Sobre A Investigação Póstuma

Antes de falar do jogo em si, é importante falar sobre o livro que inspira o jogo. Memórias Póstumas de Brás Cubas é a obra considerada o início do Realismo no Brasil, e uma das obras mais famosas de Machado de Assis, considerado por muitos como o maior autor da história da Literatura Brasileira.
O livro começa com a frase que abre este texto, e traz Brás Cubas escrevendo sobre sua vida e morte, numa crítica cáustica à alta sociedade carioca do começo do século XX.
Já o jogo A Investigação Póstuma foi criado pelo Mother Gaia Studio, um estúdio brasileiro de Bauru, SP, e sua ideia surgiu em 2014, numa game jam. Na época, chamado de Ground Hog Day, era sobre um detetive contratado pela vítima morta que estava preso num loop temporal. A ideia foi modificada para que a vítima fosse Brás Cubas, e as personagens, referentes não só a Memórias Póstumas, como também a outros livros de Machado de Assis, criando um Machadoverso, e foi inscrito num edital de produção de jogos da ANCINE.
Seu desenvolvimento começou em 2020, e depois de um adiamento causado pela COVID, ele foi lançado para PC em março deste ano. Depois de alguns meses de espera, ele chegou para os consoles mês passado.
História

A história de A Investigação Póstuma é razoavelmente simples. Em vez de morrer de pneumonia, como na obra original, Brás Cubas é assassinado. No papel de um detetive, você recebe uma carta póstuma do homem, alegando que foi assassinado e incumbindo a você a missão de descobrir quem foi o responsável por sua morte violenta.
Inicia-se então um passeio pelo Rio de Janeiro de 1937. Você precisa falar com várias personagens importantes da sociedade carioca machadiana, coletar pistas, descobrir onde cada pessoa estava na hora do crime e quais seus álibis, hábitos e costumes.
Inicialmente, você só tem o Centro para explorar, da Pharmácia à Igreja, passando pela padaria e pelo clube, mas conforme você vai pegando pistas, mais e mais lugares vão se abrindo. Ao final do dia, porém, algo interessante acontece. Você é levado para o Limbo, onde encontra o finado Brás Cubas que te explica que você está preso num loop temporal. Até encontrar seu algoz, você viverá o mesmo dia de novo e de novo e de novo.
No Limbo, você ouve as confabulações de Brás Cubas sobre sua vida e morte, monta o quadro das evidências e relatos coletados durante o dia, para tentar entender as conexões entre cada pessoa e pode receber dicas dele baseadas no que você tem de informações novas.
Aliás, as falas do homem são tão bem escritas num perfeito estilo machadiano, que em alguns momentos, eu digitei o que ele tinha falado para saber se era citação do livro, e não era. Pessoal que estudou na UNESP e criou o estúdio manja muito dos paranauês.
Além da trama principal, que é descobrir qual dos parvos da elite carioca é o verdadeiro culpado do homicídio de seu cliente póstumo, você tem diversas outras tramas para desvendar, e a cada vez que encerra uma, o dia acaba automaticamente, ele te puxa de volta para o limbo, te informa que você encerrou uma trama.
A maioria das personagens relevantes da história é tirada de Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas outras personagens eminentes do universo machadiano também estão presentes, como Capitu, Bentinho, Quincas Borba e Simão Bacamarte.
Jogabilidade

A Investigação Póstuma é um jogo Point and Click clássico com loop temporal. Você tem das nove da manhã até a meia-noite para coletar pistas, descobrir onde cada uma das 14 pessoas relevantes está e juntar o máximo possível de informação. Ao fim do dia, você cai no sono, volta ao Limbo, revisa o dia com Brás Cubas e, ao sair, acorda novamente caindo da cadeira no seu escritório às 9h do mesmo dia. De novo, e de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias até você conseguir resolver o grande mistério.
Como cada pessoa tem uma rotina independente e igual, talvez a parte que mais pode causar confusão é decidir quem seguir a cada dia. Muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, e às vezes, para seguir uma pessoa, você precisa abandonar outra linha de investigação, porque não dá tempo de fazer tudo o que gostaria. A vantagem é que quando você já sabe do que precisa, por exemplo, de comprar um pão de queijo para o Sargento Meganha para investigar o beco onde Brás Cubas foi morto, você pode ir direto adquirindo as coisas e poupar tempo.
Ao falar com as pessoas, você pode entregar itens que fazem informações novas surgirem, fazer perguntas sobre as outras pessoas suspeitas e confrontá-las com relatos que ficou sabendo e ver como recontam ou explicam melhor suas histórias.

Em alguns momentos, as coisas parecem estar travadas, até que um relato em específico de alguém abre uma cadeia inteira de novas possibilidades. Às vezes, um item que você acha faz alguém comentar sobre algum lugar novo, e aí, tudo o que parecia travado desenrola num grande fio novo, até enrolar de novo e você quebrar a cabeça. É um jogo que vai te fazer raciocinar bastante.
O jogo tem minigames em alguns momentos, como coletar as flores certas de um jardim de flores premiadas, e o bacana é que depois que você termina um minigame, você pode optar se vai fazê-lo de novo ou só pegar o resultado, evitando, assim, ter que repetir tudo.
O loop depois de um tempo fica um pouco cansativo em alguns pontos, especialmente quando você precisa de item A pra fazer coisa B e falar com pessoa C no lugar D e tem horários específicos pra isso, porque se você perder o horário de algo, precisa avançar o tempo até o dia seguinte e tentar de novo. Algumas ações vão forçar o tempo a ser avançado, também eliminando todas as outras possibilidades nesse meio-tempo.

A gente poderia ter um pouco mais de liberdade nas ações, mas o jogo cumpre bem o que promete, com estilo.
Parte Técnica

A Investigação Póstuma roda como um jogo indie deveria rodar num Nintendo Switch: fluido. Obviamente, tudo carrega muito mais rápido e a aparência é mais bonita no Switch 2, mas ele também é bastante aprazível de se jogar num Switch padrão.
A arte noir em preto e branco traz uma vibe muito única, além de ser muito bem feita. Outra coisa que contribui bastante para isso é a trilha sonora. Um misto de jazz com bossa nova, dá até vontade de tomar um bom vinho enquanto joga, para acompanhar o ambiente.
Falando em som, ter Rodrigo Lombardi fazendo a voz de Brás Cubas nas narrações principais é uma adição impressionante. Ele consegue passar a sensação de ouvir um membro da alta sociedade carioca falando contigo, com um leve toque de deboche e galanteio ao fundo. Sua beleza máscula que faz sucesso nas telenovelas é notável até pela voz.
O jogo tem suporte ao toque, com várias funções podendo ser feitas simplesmente tocando a tela, o que facilita muito. Eu nunca entendi jogos point and click que foram feitos para PC não oferecerem esse suporte, já que em vários deles, tentar fazer as mesmas ações pelo controle é bem difícil. Não é o caso aqui, porém, já que é tudo bem simples.
Há opções de aumento de fonte, para ficar mais fácil de ler, velocidade de texto e, dando uma surra em jogos estrangeiros que alegam ser difícil de traduzir para vários idiomas, além do nosso rico português do Brasil à Machado, o jogo tem outros 5 idiomas, incluindo japonês, russo e chinês. E assim, por 50 reais nos consoles e 25 nos celulares, não tem desculpa para não ser jogado por qualquer amante não só da Literatura Brasileira, como também por qualquer pessoa que goste de jogos investigativos.
Conclusão
A Investigação Póstuma não apenas é uma belíssima homenagem ao talvez maior autor brasileiro, como também um excelente jogo. Apesar do ciclo de loop temporal cansar em alguns momentos, as reviravoltas e criatividade mais do que compensam, especialmente pelo preço que é oferecido.
Análise feita com cópia gentilmente cedida pela CriticalLeap



Discussões sobre isso post