Existe algo particularmente satisfatório em vencer uma batalha de Fire Emblem depois de passar vários minutos calculando cada movimento. Às vezes, basta posicionar uma unidade na casa errada para transformar uma vitória aparentemente garantida em um desastre. Fire Emblem: Fortune’s Weave entende muito bem essa sensação, mas vai além: a Intelligent Systems decidiu que as decisões tomadas fora dos confrontos também deveriam ter um peso considerável na experiência. O resultado é um RPG tático de proporções enormes, que reúne algumas das melhores ideias da franquia e, ocasionalmente, acaba tropeçando na própria ambição.
Desenvolvido pela Intelligent Systems e publicado pela Nintendo, o título representa uma evolução importante para a série no Nintendo Switch 2. Quem acompanhou Fire Emblem: Three Houses encontrará elementos familiares na construção dos personagens e nas atividades realizadas entre as batalhas, enquanto os confrontos aproveitam a agilidade e o refinamento estratégico vistos em Fire Emblem Engage. A diferença está na maneira como todas essas peças foram reorganizadas para sustentar uma aventura muito maior, na qual administrar o tempo, desenvolver relacionamentos e explorar o mundo deixou de ser apenas uma distração entre capítulos.

A história se desenvolve no reino de Dagda, tendo como um de seus principais acontecimentos os Jogos Heroicos, um torneio cujo vencedor poderá realizar um desejo. É nesse cenário que conhecemos Cai, Leda, Dietrich e Theodora, quatro protagonistas com objetivos, personalidades e motivações bastante diferentes. Acima dessas jornadas está Eshmel, personagem que busca alterar os acontecimentos do passado para impedir um futuro devastador. A premissa abre espaço para conflitos pessoais, disputas políticas e alianças inesperadas, sem depender exclusivamente da clássica batalha entre heróis e forças malignas.
A maior conquista dessa estrutura está na liberdade de acompanhar as quatro jornadas dentro de uma mesma campanha. Em vez de exigir que o jogador termine uma longa história para então recomeçar tudo sob outra perspectiva, Fortune’s Weave permite alternar entre os protagonistas e desenvolver suas trajetórias paralelamente. Cada um possui atividades e mecânicas particulares, o que ajuda a dar identidade às campanhas. Cai apresenta possibilidades ligadas à coleta e ao desenvolvimento de recursos, Dietrich tem maior ênfase em duelos, Theodora trabalha com tropas e administração, enquanto Leda explora habilidades relacionadas às suas apresentações. São diferenças que vão além dos diálogos e tornam a escolha de cada caminho relevante também para a jogabilidade.
Naturalmente, o coração da experiência continua nas batalhas por turnos. E é justamente nelas que o jogo demonstra sua maior competência. O posicionamento das unidades, o alcance dos ataques, as vantagens entre equipamentos e as possibilidades de desenvolvimento das classes se combinam em confrontos que recompensam planejamento e adaptação. As novas Blaze Arts, habilidades especiais capazes de consumir pontos de vida dos protagonistas em troca de efeitos poderosos, acrescentam uma camada interessante de risco e recompensa. Já as Combat Arts oferecem alternativas ofensivas que exigem atenção ao desgaste das armas. O interessante é que vencer não depende simplesmente de acumular personagens fortes, mas de entender como suas habilidades podem funcionar em conjunto.

Também há espaço para diferentes estilos de jogo. As opções de dificuldade e as regras relacionadas à perda permanente de personagens permitem ajustar o nível de exigência, enquanto o recurso de voltar alguns turnos ajuda a corrigir decisões ruins. Isso não elimina a tensão dos confrontos mais difíceis, especialmente quando um inimigo inesperado ameaça uma unidade importante. Por outro lado, o equilíbrio nem sempre é ideal: algumas batalhas apresentam resistência considerável, enquanto outras podem se tornar relativamente simples depois que o grupo alcança um bom nível de desenvolvimento. Ainda assim, a variedade de estratégias disponíveis mantém os combates interessantes durante boa parte da campanha.
Fora dos campos de batalha, Fortune’s Weave apresenta um continente que pode ser explorado por meio de um mapa repleto de cidades, comerciantes, masmorras e atividades secundárias. A passagem do tempo funciona como um recurso a ser administrado, já que viajar e realizar determinadas ações consome turnos disponíveis antes do próximo compromisso da história. Há uma satisfação genuína em organizar uma expedição, reunir materiais, melhorar equipamentos e retornar à cidade com novas possibilidades para o grupo. As interações sociais também contribuem para o recrutamento e fortalecimento dos aliados, tornando o desenvolvimento de relacionamentos uma parte efetiva da progressão.
O problema é que nem todas essas atividades conseguem preservar o mesmo interesse ao longo de tantas horas. O gerenciamento de deslocamentos pelo mapa pode se tornar trabalhoso, algumas tarefas acabam repetindo objetivos e as masmorras nem sempre apresentam cenários suficientemente variados. Os confrontos alternativos encontrados durante a exploração, que utilizam uma estrutura de combate diferente dos tradicionais tabuleiros, ajudam a mudar o ritmo, mas não possuem a mesma profundidade das batalhas principais. Existe muito conteúdo disponível, porém a quantidade nem sempre se traduz em momentos igualmente memoráveis.

Essa irregularidade também aparece na narrativa. Os quatro protagonistas conseguem sustentar histórias próprias, com boas interações e momentos de desenvolvimento, mas a necessidade de administrar tantos personagens e acontecimentos provoca algumas quedas de ritmo. Certas passagens demoram a avançar, enquanto outras situações poderiam receber mais atenção. Eshmel, apesar de sua importância para a premissa, nem sempre possui o mesmo carisma dos heróis que protagonizam a maior parte da aventura. Felizmente, a possibilidade de alternar entre os diferentes caminhos ajuda a reduzir a sensação de repetição que poderia comprometer uma campanha dessa duração.
Na apresentação, o Nintendo Switch 2 oferece um resultado visualmente agradável, com personagens expressivos, uma direção artística colorida e ambientes consideravelmente mais elaborados do que os vistos em capítulos anteriores. A cidade de Dagsion merece destaque por sua arquitetura e pela movimentação dos habitantes, contribuindo para tornar o mundo mais convincente. A trilha sonora acompanha bem os momentos de tensão e as sequências dramáticas, enquanto a dublagem ajuda a dar personalidade ao extenso elenco. Não se trata, entretanto, de uma demonstração completa do potencial técnico do console.
O jogo funciona a 30 quadros por segundo, com estabilidade satisfatória na maior parte da experiência, mas sem oferecer uma opção de 60 quadros. A resolução interna relativamente baixa, ampliada por técnicas de reconstrução de imagem, também pode deixar alguns elementos menos definidos, especialmente no modo portátil. Embora essas limitações não prejudiquem profundamente um RPG baseado em turnos, é razoável esperar um pouco mais de um lançamento desenvolvido exclusivamente para o Nintendo Switch 2. Em compensação, os carregamentos rápidos e a boa resposta dos comandos tornam a navegação pelos menus e o andamento das batalhas bastante confortáveis.

No fim das contas, Fire Emblem: Fortune’s Weave é uma experiência que exige tempo e disposição, mas oferece recompensas à altura desse investimento. A Intelligent Systems encontrou uma maneira sábia de unir múltiplos protagonistas, administração de recursos e confrontos estratégicos sem abrir mão da identidade que tornou a franquia tão querida. Nem toda atividade precisava estar presente, e alguns ajustes no ritmo tornariam a jornada mais consistente. Ainda assim, quando as diferentes mecânicas se encontram e uma batalha exige explorar tudo o que foi aprendido, fica evidente a qualidade do trabalho realizado. É um dos RPGs táticos mais completos do Nintendo Switch 2 e um capítulo especialmente ambicioso para a série.
O jogo foi gentilmente concedido pela parceira Nuuvem para esta análise.



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