Não importa se a música é dos anos 1970 ou se acabou de conquistar as paradas de sucesso. Quando uma canção conhecida começa a tocar, sempre existe alguém disposto a arriscar alguns passos, mesmo que a coordenação motora não acompanhe o entusiasmo. É justamente nessa mistura de nostalgia, diversão e um pouquinho de vergonha alheia que Just Dance: Decades of Hits encontra sua maior qualidade. A Ubisoft decidiu trocar a tradicional referência anual por uma celebração de diferentes gerações musicais, criando uma edição que procura aproximar jogadores de todas as idades. A ideia funciona muito bem, ainda que as novidades não representem uma transformação tão grande quanto o novo nome poderia sugerir.
Disponível para Nintendo Switch, o jogo apresenta 35 músicas distribuídas por seis décadas, começando nos anos 1970 e chegando aos sucessos da década de 2020. Há também cinco coreografias alternativas que acrescentam variedade ao repertório. A seleção reúne artistas como ABBA, Madonna, Spice Girls, Britney Spears, Gorillaz, Olivia Rodrigo, Sabrina Carpenter e Bad Bunny. Essa combinação de estilos é particularmente interessante porque não depende exclusivamente das tendências atuais, algo que torna a experiência bastante convidativa para reunir pessoas com preferências musicais diferentes.

É difícil imaginar uma reunião de amigos na qual ninguém reconheça pelo menos algumas das músicas disponíveis. “Mamma Mia”, “Wannabe”, “Bye Bye Bye”, “Feel Good Inc.” e “Danza Kuduro” são bons exemplos de como a seleção consegue atravessar gerações sem perder o espírito festivo. Algumas faixas já apareceram anteriormente na franquia, mas retornam acompanhadas de novas coreografias, oferecendo uma interpretação diferente de músicas conhecidas. Naturalmente, a qualidade do repertório também depende do gosto pessoal de cada jogador, e nem todas as décadas receberam a mesma quantidade de canções memoráveis.
Na jogabilidade, a essência permanece praticamente intocada. Basta acompanhar os movimentos dos dançarinos exibidos na tela enquanto o jogo avalia a execução dos passos. O Nintendo Switch permite utilizar os controles Joy-Con, embora também seja possível recorrer a um smartphone compatível com o aplicativo de controle da Ubisoft. Essa simplicidade continua sendo uma das grandes virtudes da série. Não é necessário conhecer combinações complicadas de botões ou dominar sistemas elaborados para participar. Basta escolher uma música, segurar o controle e tentar acompanhar a apresentação.
Isso não significa, entretanto, que o reconhecimento dos movimentos seja perfeito. Como acontece em outras edições da franquia, o sistema consegue identificar a maior parte dos gestos, mas determinados movimentos mais elaborados podem receber avaliações que nem sempre parecem corresponder à execução apresentada. A facilidade para conquistar pontuações elevadas em algumas músicas também reduz o desafio para jogadores experientes. O equilíbrio favorece claramente a acessibilidade, mas acaba deixando pouco espaço para quem gostaria de encontrar um sistema de pontuação mais exigente e consistente.

A principal novidade está no Modo Aventura, que abandona a estrutura tradicional de simplesmente selecionar músicas e oferece uma pequena jornada através do tempo. A história acompanha Lyra Gigavolt, que precisa viajar por diferentes décadas para resgatar seu pai, o Dr. Gigavolt, após um acidente envolvendo uma de suas invenções. A premissa é simples e bastante descontraída, funcionando como uma justificativa para explorar mundos temáticos enquanto novas atividades são desbloqueadas. Não espere grandes reviravoltas ou personagens especialmente desenvolvidos. A narrativa está ali para conectar as apresentações, e cumpre essa função sem tentar ocupar mais espaço do que deveria.
O que realmente torna essa aventura interessante é a maneira como ela modifica o ritmo tradicional da franquia. Cada década apresenta um ambiente próprio, com referências visuais às tendências culturais e tecnológicas daquele período. Além das coreografias, existem pequenos desafios e perguntas sobre acontecimentos, objetos e costumes de cada época. Essas atividades funcionam como intervalos bem-vindos entre uma música e outra, oferecendo variedade sem complicar a experiência. A possibilidade de participar da aventura com até seis jogadores reforça seu caráter cooperativo, especialmente porque a progressão considera o desempenho conjunto dos participantes.
O Modo Aventura também oferece recompensas para personalizar o perfil, incentivando a exploração dos cenários e a conclusão dos desafios. Entretanto, sua progressão relativamente fácil e a pouca profundidade da história impedem que ele se torne uma atração tão duradoura quanto poderia. Depois de percorrer as diferentes décadas, o interesse volta naturalmente para a seleção livre de músicas. Ainda assim, é uma adição bem-vinda, principalmente por oferecer um objetivo mais definido para jogadores que preferem acompanhar uma sequência de atividades em vez de escolher apresentações isoladas.

Os modos Party e Exercício complementam o pacote. O primeiro acrescenta regras e pequenas surpresas às apresentações, deixando as partidas menos previsíveis, enquanto o segundo acompanha informações relacionadas ao tempo de atividade e ao gasto estimado de calorias. São recursos interessantes para quem deseja transformar a dança em uma atividade frequente, embora a organização das sessões de exercício ainda pudesse ser mais flexível. O foco permanece no entretenimento, mas a possibilidade de acompanhar o próprio desempenho oferece uma motivação adicional para retornar ao jogo.
Visualmente, Just Dance: Decades of Hits mantém o estilo vibrante característico da franquia. As coreografias utilizam cenários bastante coloridos, figurinos elaborados e efeitos que acompanham o ritmo das músicas. Algumas apresentações exploram animações tridimensionais e técnicas como stop-motion, criando resultados que se destacam em meio aos vídeos tradicionais. A direção artística consegue oferecer personalidade às diferentes décadas, ainda que algumas coreografias sejam mais interessantes de assistir do que propriamente de acompanhar. No Nintendo Switch, a experiência preserva essa identidade visual, embora a apresentação técnica não represente um avanço significativo em relação às edições anteriores.
Um aspecto menos agradável está na organização do conteúdo. Assim como nos lançamentos recentes, o jogo utiliza a plataforma compartilhada de Just Dance, reunindo diferentes edições e músicas em uma mesma interface. Isso facilita o acesso à biblioteca já adquirida, mas também pode tornar os menus um pouco confusos para quem está chegando agora. O serviço de assinatura Just Dance+ continua oferecendo um catálogo adicional, o que amplia as possibilidades, mas também significa que parte da experiência musical permanece vinculada a um pagamento separado.

Outro detalhe importante é a dependência de conexão para reproduzir músicas que ainda não foram baixadas. Felizmente, é possível armazenar canções no console para jogar sem internet, desde que o download seja realizado antecipadamente. Essa alternativa ajuda bastante, mas exige preparação para quem pretende levar o Nintendo Switch a uma festa ou utilizá-lo em locais sem uma conexão estável. A necessidade de gerenciar o armazenamento e o conteúdo disponível acrescenta uma etapa que poderia ser mais simples em um jogo tão voltado à diversão imediata.
No fim, Just Dance: Decades of Hits demonstra que nem sempre é necessário reinventar uma fórmula para continuar oferecendo bons momentos. A seleção musical é competente, as apresentações são criativas e o Modo Aventura oferece uma maneira agradável de explorar o repertório. Ainda existem problemas de reconhecimento dos movimentos, uma estrutura de menus pouco convidativa e certa falta de ousadia nas mecânicas principais. Mesmo assim, a Ubisoft entrega uma edição especialmente interessante para quem pretende dividir a experiência com amigos e familiares. Talvez não seja o capítulo mais inovador da série, mas consegue lembrar por que dançar na frente da televisão continua sendo tão divertido.
Jogo gentilmente fornecido pela Ubisoft para elaboração desta análise.




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