Legacy of Kain, ao surgir em 1996 com Blood Omen, criaria uma legião dedicada de fãs, especialmente no Brasil, já que sua sequência, Soul Reaver (1999) foi um dos primeiros jogos a serem completamente dublados no nosso bom e querido português.
A série ficou congelada desde o cancelamento de Dead Sun em 2012, até ser lançado o Remaster de Soul Reaver 1 e 2 (clique aqui para ler a análise) em 2024, junto do anuncio de um novo quadrinho que expandiria a história (The Dead Shall Rise) que viria acompanhado de um game, Legacy of Kain: Ascendance, game desta análise.
O jogo se tornou objeto de revolta por alguns fãs assíduos de longa data da série e pretendo abordar esse assunto mais para o final do artigo, com um alerta de spoiler antes da sessão chegar. Mas sem mais delongas, vamos à análise.

Legacy of Kain: Ascendance muda a série do 3D para o 2D
Neste novo jogo 2D com pitadas de Metroidvania, o jogador irá passar por diversos eventos que ocorreram durante Legacy of Kain Soul Reaver.
Além de Raziel na sua forma humana e vampírica (não a cadavérica), Kain e uma nova personagem, Elaleth, se juntam ao time de personagens jogáveis, cada um com suas ambições e habilidades únicas (porém que usam as mesmas barras de vida e especial, mantendo as melhorias encontradas pelos outros personagens).
O jogo se passa durante 10 capítulos que, para evitar spoilers, ao menos até o final deste artigo, irei evitar de mencionar aqui. Mas o que posso dizer é que a história representa bem a direção, o diálogo shakespeariano e as conotações épicas da famosa narrativa da franquia.
Como se não fosse o suficiente, o time trouxe muito dos dubladores originais (da língua inglesa) dos personagens clássicos, retendo a identidade que tanto amamos na série.

A narrativa se torna um tanto pesada gramaticalmente por vezes. Isso ocorre muito na série original, mas de uma forma mais orgânica. Apesar de não atrapalhar em Ascendance, sinto que em muito momentos diálogos inteligentemente construídos foram adicionados mais para trazer uma sensação de nostalgia do que por servir de alguma coisa no jogo. Não estraga, mas é ruim quando vemos algo forçado só pra manter o “tom” pesado gramatical na narrativa.
O melhor é que, apesar das vozes em inglês (tanto o remaster de Soul Reaver 1 quanto Defiance tiveram dublagem em português, Ascendance não), as legendas são totalmente em português, ajudando assim jogadores que possuem pouco conhecimento da língua estrangeira a entender o jogo.
Elaleth, Raziel (humano e vampiro) e Kain são personagens jogáveis
Legacy of Kain: Ascendance é um jogo 2D onde o jogador atravessa fases, mas pode voltar para pegar itens que ficaram para trás.
O jogo possui um sistema robusto de combate e plataforma no quesito balanço. No modo normal, o jogo é um tanto desafiador, especialmente na segunda fase, quando precisamos jogar com Raziel em sua forma humana.

Todos os personagens (se contarmos a forma humana de Raziel, temos 4) podem pular, se esquivar e alguns podem flutuar e voar. Todos possuem um ataque com espada, o contra-ataque e, tirando Raziel Humano, uma investida no ar.
O sistema é enxuto e modesto, mas muito bem aplicado. O jogo possui uma dificuldade gradativa que sabe misturar os diferentes tipos de inimigos para trazer momentos realmente tensos. Como se não fosse o suficiente, os personagens vampíricos vão perdendo vida ao longo do tempo devido a sede de sangue, um revés que pode ser amenizado permanentemente com a descoberta de amuletos.
O jogo também tem uma ótima exploração. Além dos diversos pergaminhos que narram o universo do jogo (e que abrange tudo, desde os primeiros acontecimentos em Blood Omen até a raça Hylden mencionados em Blood Omen 2), há também melhorias permanentes de vida, especial e amuletos que garantem outros benefícios, como a redução de perda de sangue ou uma pequena recuperação de vida ao acertar um ataque.

Os inimigos são fiéis às diversas eras que Raziel passa nos jogos anteriores, especialmente em sua aparência, apesar dos ataques permanecerem similares na maioria dos inimigos. Existe uma certa quantidade de inimigos com golpes diferentes, o restante das variações só mudam de aparência, mas o pouco que há realmente faz a diferença no balanço do combate.
Tudo isso é somado a batalhas contra chefes que, diferente dos inimigos, não são tão balanceados assim. Apesar de haver uma forma de derrotá-los, lutar de forma desenfreada e sem estratégia também é uma solução viável.
Dito isso, além da excelente atuação de voz, o jogo conta com uma trilha sonora fenomenal, uma das melhores que já ouvi nos últimos anos. E toda a construção musical bate com o momento do jogo. A fase onde só enxergamos a sombra de Elaleth e a batalha dos soldados Serafans contra Janos Audron (onde cada membro grita o motivo de estar enfrentando o vampiro enquanto uma épica música toca ao fundo) são inesquecíveis.

Nem tudo é sangue bom
O jogo tem recebido muitas críticas por fãs, alguns que nem jogaram o jogo, devido a história, no qual já irei entrar em detalhes. Dito isso, é importante notar duas coisas em relação a Ascendance: ele é extremamente curto (e estamos falando de uma série que muita gente tem aguardando anos por uma sequência “digna”) e muito econômico no tangente variedade.
As fases são extremamente repetitivas de visual, os personagens, apesar de bonitos, possuem uma aparência bem simplificada. A variedade de inimigos, como mencionado acima, é pequena.
Ascendance também não sabe se quer ser um jogo que anda com as próprias pernas ou um fan service para os veteranos dos jogos anteriores. Há momentos em que a narrativa pega na mão do jogador, e há momentos em que simplesmente surgem partes em que, se você não jogou os clássicos, vai ficar boiando na história. E o pior é que isso afeta até a jogabilidade.
Em um determinado momento, o jogo se torna 3D momentaneamente, e somos obrigados a responder algumas perguntas que só quem entende do universo ou jogou os antigos títulos da série vai conseguir responder sem maiores dores de cabeça. Alguns pergaminhos dão uma informação ou outra, mas não de todos os guardiões para novos jogadores entenderem para responderem as perguntas da fase.

Além disso, a direção não soube equilibrar esse momento. Em certa parte o jogo é uma ação frenética com exploração e, de repente, somos jogados a uma série de diálogos pesados e a uma seção grande de perguntas e respostas, quebrando totalmente o passo do jogo.
Outra coisa que incomoda, especialmente após zerar uma vez, é que não é possível pular os diálogos, fazendo a reexploração de um lugar para encontrar itens esquecidos um tanto tediosa.

ALERTA DE SPOILERS – SE VOCÊ QUER JOGAR PELA HISTÓRIA, PODE IR PARA A NOTA FINAL E VOLTAR NESSA SEÇÃO DEPOIS DE JOGAR
Muito bem, vamos falar do elefante na sala, a reclamação de muitos fãs em relação a história.
Elaleth revelaria a Raziel que ele fora um Serafan antes de Kain o transformá-lo em vampiro (Soul Reaver 1), assim conflitando com toda a história dos clássicos, além das maquinações de Mortanius (dominado pela Entidade da Escuridão). Isso é um tanto irônico quando comparado com a quantidade de furos que a história da franquia possui, e quando a linha oficial já fez o mesmo com Blood Omen 2.
Legacy of Kain é uma série que reescreve a história a todo momento. Blood Omen 2 (um jogo que muitos defenderam quando a crítica atacou a inconsistência histórica, já que foi outro time que produziu o jogo, e não o mesmo de Soul Reaver, que tinha a escritora Amy Henning na produção) passou por isso.
Além disso, assim como o amuleto de Elaleth segura memórias seletivas, temos o Deus Ancião que poderia muito bem ter revivido Raziel só pela sede de vingança, ou até mesmo o esquecimento graças aos anos em que Raziel ficou morto no Lago dos Mortos, acordando somente com sede de vingança e redescobrindo sua origem.
Ou ainda mais: com o Paradoxo criado por Kain, pode ter sido reescrita toda a história novamente, como o final de Ascendance sugere, criando uma nova linha do tempo principal. Ou vamos ainda mais além, se você realmente jogou Ascendance e encontrou todos os pergaminhos, você habilita um último, que diz que os Observadores, que registram os eventos históricos, podem muito bem ter escrito sem ter certeza do que viram, devido às diversas reescritas que a história de Nosgoth passa pelos feitos de Kain.
Em outras palavras, coloca todas as incertezas e inconsistências orgânicas que é, em si, a alma da série Legacy of Kain, e o que faz a história da série ser tão interessante: a consciência lutando contra o destino e enfrentando o tempo e a mortalidade. O jogo é tão bom em fazer isso que em Ascendance acertaram até mesmo a personalidade de Kain, que ao invés de um anti-herói, é mostrado como um arrogante que, mesmo tendo o conhecimento e as ferramentas em mãos, ainda sucumbe à própria vaidade.

Eu vejo essa leitura de fãs assíduos da série de outra forma (não generalizando, claro): defender com unhas e dentes um produto comercial com aberturas e furos ao longo dos anos ou não gostarem do gênero 2D e ficarem desapontados com um título diferente na série. Isso não indo mais além, falando de jogadores menos maduros que não podem ver uma mulher assumir o protagonismo de uma série que sempre foi estrelada por personagens masculinos.
A história em Ascendance, além de fazer sentido pela narrativa de Legacy of Kain (por sempre ter bagunçado às linhas do tempo desde que Kain e Moebius maquinaram e alteraram a história de Nosgoth), pode ter feito uma linha completamente separada. Além do fato do pergaminho secreto deixar claro que ninguém que registra a história no universo de Legacy of Kain tem certeza de tudo o que escreve. Tudo é uma prova que a narrativa de Ascendance é mais próxima do universo do que fãs (especialmente os que falam sem ter jogado Ascendance) gostariam de acreditar.

Um último detalhe, o jogo termina fazendo alusão ao quadrinho de 160 páginas, The Dead Shall Rise, servindo como uma espécie de prólogo, do qual também pretendo analisar e trazer aqui para vocês.
Dito isso: é um bom jogo, com falhas estruturais como qualquer outro, mas possui um ótimo balanço de dificuldade e um sistema de batalha e plataforma desafiador e justo.
Análise realizada com uma chave gentilmente cedida pela editora.
Legacy of Kain: Ascendance
Editora: Crystal Dynamics
Desenvolvedora: Bit Bot Media
Lançamento: 31/Mar/2026
Plataformas:
Opções de Compra:
Nintendo eShop



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