Quem nunca quis deixar sua vida chata e virar herói em outro mundo? Essa é a premissa básica de Isekais, um dos gêneros mais populares em todas as mídias. Isekai Villain subverte um pouco isso, te tirando do mundo real e colocando no papel de um vilão menor num mangá. Será que funciona?
Sobre Isekai Villain

Se você joga RPG há um tempo, provavelmente já pegou um desses jogos. São JRPGs de turno, com gráficos pixelados típicos da época do Super Nintendo, criados pela Exe Create e lançados pela Kemco. Mais recentemente, vários são produzidos por Ryuji Takumi.
Alguns deles são muito bons, alguns deles são muito ruins, alguns deles são medianos. A maioria é agradável o suficiente para valer a pena jogar. Jogos como Isekai Rondo, Asdivine Cross, Asdivine Dios, Antiquia Lost e outros.
Isekai Villain é mais um deles. Lançado em outubro do ano passado para celulares, o jogo, assim como todos os RPGs recentes da Kemco, apresenta uma versão gratuita com propagandas e microtransações e uma versão premium, com benefícios.
Depois de uns meses de localização, e sem muito alarde, Isekai Villain foi lançado em junho deste ano para PC e todos os consoles, incluindo Nintendo Switch e Nintendo Switch 2.
História

Yu Nishimura é um garoto comum, sem nada de especial, que vive uma vida comum e chata em Tóquio. Um dia, lendo um mangá chamado The Titan of Tulan, ele cai num bueiro, e morre… só que não. Ele acorda e está no mundo desse mangá, e agora seu nome é Gray.
A outra questão é que, em vez de ser um herói, ele é um vilão. E não tem nada de especial, é um “grunt”, funcionário de baixo escalão da organização criminosa da qual faz parte.
Só que tem um problema: ele já leu a história e sabe que termina com a derrota dos vilões e aniquilação de todos eles, e ele definitivamente não quer morrer.
Ele então começa a bolar um plano pra escapar, até que salva uma personagem que morre na história original, e aí, Gray decide tentar crescer sua notoriedade e importância dentro da sua gangue, os Crown Eaters (Devoradores de Coroas), para poder tomar decisões que mudem o destino do mundo.
Junto com Reef, da raça Kalbean, um bicho humanoide bem estranho de se ver, que é viciado em comida apimentada e faz tudo por um prato de grude feito por Gray, Denice, a guria que ia morrer e ele salva, que topa tudo por aventura, e Zalam, outro condenado à morte salvo por Gray, desajustado e expulso de vários grupos, Gray agora tem a força necessária para subir sua popularidade e se tornar um vilão importante.

Apesar disso, em vários momentos, você vai se sentir mais herói que vilão. Será que os heróis são mesmo heróis? Tirando a princesa e o príncipe, que acreditam na coexistência pacífica de todo mundo, a maioria dos guerreiros “heróis” é bem egocêntrica e focada nos seus objetivos, como sempre acontece com quem se orgulha de ser pura luz, empatia, amor e justiça. Então, por mais que você esteja numa organização tecnicamente do mal, em vários momentos, eu senti Gray mais como um anti-herói do que de fato como um vilão. Especialmente em missões paralelas, não tem nada como roubar uma carroça, sequestrar uma princesa ou surrupiar tortas de uma padaria; você ajuda pessoas, exatamente como faria se fosse herói.
No geral, a premissa é bem interessante, mas falta agência e aproveitar melhor diversos ganchos que a história dá.
Você será capaz de guiar Gray e os Crown Eaters à sobrevivência, ou vai apenas seguir seu destino e morrer novamente?
Jogabilidade

Na superfície, Isekai Villain oferece o mesmo tipo de jogabilidade padrão dos jogos do tipo. É um JRPG de turno, você viaja pra lá e pra cá, você mata bichos, sobe de nível, melhora o equipamento, vence bosses e vai avançando. Um ponto importante é que não achei muitos gargalos de grind no jogo. Há uma ou outra batalha que é mais difícil, mas na maioria do tempo, não senti que precisava ficar grindando para subir o nível antes. Só aconteceu em um momento, que eu estava com pressa e acabei diminuindo o nível de encontros aleatórios, e ao chegar ao boss do final da dungeon, eu tava em nível mais baixo. Mas fora isso, tudo bem honesto aqui.
As dungeons, falando nisso, são bem lineares e não oferecem muita variedade e/ou criatividade, mas também não incomodam. Só não são nada de especial.
Algumas mecânicas diferentes existem, porém. Nas batalhas, as mais significativas são as habilidades passivas e o combate, que é um pouco mais evoluído.
Habilidades passivas você consegue ao realizar um tipo de ação uma determinada quantidade de vezes, como curar alguém, dar um ataque sequencial, ou usar seu especial. Até mesmo apanhar de coisas específicas por vezes suficientes te dá alguma habilidade passiva disso.
Já a questão da batalha traz algumas mecânicas interessantes. Cada inimigo tem algumas fraquezas. Acertar sequencialmente as fraquezas vai quebrar o inimigo, permitindo que você faça um Break Attack, que é um ataque extra, mais forte, que causa muito mais dano.
Outra mecânica bacana são os Chain Attacks. Há algumas exigências específicas, como usar algum tipo específico de ataque, mas quando ativados, os Chain Attacks mudam a ordem dos turnos, fazendo todos os aliados de quem ativou atacarem mais rápido, permitindo que você bata várias vezes nos inimigos antes de eles baterem em você.
Como todo RPG, você tem uma árvore de habilidades, que te permite escolher qual caminho e quais habilidades especiais suas personagens terão. Além disso, o jogo tem um sistema de Notoriedade, que aumenta seu rank dentro da guilda conforme você faz coisas malvadas, como roubar itens de baús, destruir vasos, derrotar heróis, e por aí vai. Ao subir sua Notoriedade, você ganha poderes extras e até mesmo uma árvore de habilidades exclusiva de um nível mais alto.
O jogo também tem um passe de batalha interno, que você recebe itens cada vez que atinge um certo nível. Ele também tem um trilha premium, que você pode comprar com Evil Stones, a moeda premium do jogo. Entretanto, diferente das versões mobile, na versão do Switch de Isekai Villain, você não pode gastar dinheiro para comprar Evil Stones, precisando ganhá-las através de cumprir missões. O jogo também tem uma loja interna que te permite gastar Evil Stones em troca de itens superfortes, mas, de novo, sem poder envolver dinheiro real nisso. As microtransações como um todo foram removidas. Versão mobile tem pacotes de Evil Stones custando até 60 dólares, então, acho uma boa terem tirado, já que essa era uma das críticas mais ferrenhas ao jogo: o quanto as microtransações e o gacha do jogo eram agressivos.
O que você pode de fato gastar dinheiro na versão do Switch e Switch 2 é nos pacotes extras de DLC. Há três disponíveis no momento desta review: Experiência Triplicada e Dano Dobrado, custando R$35,95 cada, e um que remove o custo pra comprar habilidades, custando R$29,95.
Além das questões de batalhas em si, o jogo também tem uma base secreta. Nela, você constrói instalações que te dão benefícios, como o laboratório, no qual cria itens, um ferreiro, pra melhorar suas armas e forjar novas, além de alguns lugares de ações ilegais, que melhoram seu poder e sua influência como um vilão de alto nível.
Um ponto positivo do jogo é viajar. Você não precisa caminhar por rotas infinitas cheias de monstros. Apesar de ainda ter algumas rotas e cavernas com encontros aleatórios, você no geral vai apenas escolher na lista de lugares para onde você quer ir, e será teletransportado para lá.

Um ponto complexo no jogo é a quantidade de moedas diferentes que você tem que gerenciar. Ouro, Dark Coins, Evil Stones, às vezes, fica tudo meio confuso e convoluto.
No geral, o jogo não tem nada de muito inovador isoladamente, mas esses elementos combinados fazem a experiência geral ser ok. Acho que o grande ponto negativo é o fato de que como o jogo claramente foi pensado para pessoas gastarem dinheiro, se você não usar nada dos benefícios extras, vai sentir especialmente o pós-jogo muito pesado, enquanto que se usar, o jogo fica muito fácil, mesmo que no Switch não tenha a parte das microtransações. E as DLCs quebram totalmente o jogo, deixando-o sem nenhum nível de dificuldade, virando um story mode puro, basicamente.
Parte Técnica

Isekai Villain roda bem suave. É um jogo leve, quase parece ter sido feito no RPG Maker, como todo jogo da Exe-Create lançado pela Kemco.
Tive um crash total, e uma vez na qual o jogo simplesmente travou, mas no geral, não encontrei problemas. A arte do jogo é bem bonita, tanto a parte pixelada quanto a arte das personagens, que é um pouco mais voltada ao anime/mangá, em contraste com as artes mais próximas de realismo de outros jogos.
A parte de trilha sonora é genérica, mas boa no geral, embora esquecível, nenhuma música é marcante para mim. Não há falas em nenhum idioma, as cutscenes são todas em texto puro.
Falando em texto puro, o ponto mais negativo do jogo é a localização. Não quero acusar ninguém de usar tradução automática, mas se esse trabalho foi feito por uma pessoa de verdade… bem, como tradutora profissional vou mandar meu currículo, porque a qualidade é bem ruim. Vários erros gramaticais, escolhas peculiares de palavras, inversão de sentidos, e diversos outros problemas são muito notáveis. E considerando que a maneira como Isekai Villain quebra as expectativas em alguns clichês do gênero, e isso é a melhor parte do jogo, um texto truncado e mal traduzido torna a experiência inferior. Espero que venha alguma revisão disso, mas é um esperar de ter esperança, não expectativa, porque outros jogos da Kemco/Exe-Create receberam a mesma crítica e não foram atualizados.
Além disso, não há nenhuma opção de idiomas, além do inglês ruim, outro ponto bem negativo, mas que também segue o padrão da desenvolvedora.
Conclusão
Isekai Villain traz uma excelente premissa para subverter o padrão do gênero de isekais, mas a execução é prejudicada pela localização ruim e pelo claro planejamento do jogo ser monetizado. Apesar disso, é interessante o suficiente para pegar numa promoção, porque não acho que valha mais de 100 reais (o preço atual).
Análise feita com cópia gentilmente cedida pela KEMCO




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