Se tem um gênero que está saturado de jogos, é o de construção de civilizações. Desde os primórdios da computação, há algum tipo de jogo para montar sua cidade. The Wandering Village propõe uma variação interessante para o conceito, já que aqui, sua civilização vive às costas de um animal gigante. Mas como isso se encaixa na prática?
Sobre The Wandering Village
Criação do Stray Fawn Studios, um estúdio indie de Zurique, na Suíça, The Wandering Village começou como uma ideia e uma campanha no Kickstarter, iniciada em outubro de 2020, com um objetivo inicial de 30 mil euros para que o jogo pudesse ser feito. A exemplo de todas as outras campanhas que o estúdio fez, essa superou, e muito, sua meta, passando dos 155 mil euros, e conseguindo bater todas as metas estendidas.
Desde abril de 2021, o estúdio trabalhou duro na produção do jogo, atualizando a comunidade a cada passo, até que um teste beta aconteceu em dezembro, e em fevereiro de 2022, uma demo estava disponível para ser testada. Depois de muitos testes, muitas atualizações e uma comunicação impecável com quem investiu no jogo, em 17 de julho deste ano, The Wandering Village saiu para PC e todos os consoles.
História
Algo aconteceu no planeta, e a vida foi tornada impossibilitada. Venenos, tragédias, catástrofes naturais, não sabemos exatamente o quê, mas tornou-se impossível de viver em solo no nosso planeta.
Nesse cenário desolador, uma criatura das lendas parece a salvação. Um pequeno grupo de nômades descobre-se nas costas de um Onbu, uma criatura gigante que carrega vida e esperança de futuro, literalmente em suas costas. Nesse cenário, esses nômades decidem reconstruir sua vida sobre o Onbu.
Conforme a civilização se desenvolve, você descobre estruturas já existentes, além de entender melhor como ele vive, reage, o que faz bem, o que faz mal. Ao reconstruir uma torre de rádio presente no bichão, você consegue se comunicar com outras pessoas que estão dando um jeito de sobreviver nesse mundo. Algumas vão te orientar sobre o Onbu, outras vão te ajudar a desenvolver novas tecnologias, e outras ainda contarão com você para salvar suas vidas.
A cada passo do Onbu, o destino da sua população toda está em jogo. Ele andará por áreas desérticas, por oceanos, por florestas e por campos de esporos envenenados. Ele enfrentará tempestades de relâmpagos e de areia, chuva, frio, calor e seca. E a vida de cada habitante está ligada à dele. Suas plantações, seus remédios, sua reserva de água, o tipo de comida que você pode produzir, tudo depende de qual caminho seu Onbu segue, e de como você reage às intempéries.
Conforme sua civilização se desenvolve, você precisa começar a fazer escolhas, porque seus habitantes vão ficando mais exigentes. Você vai viver em harmonia com o Onbu, num povoado menor, mas com um animal feliz carregando você por aí, ou você vai explorar os fluidos do animal, diminuindo a confiança dele em você, mas te permitindo crescer sua civilização até o limite?
Quanto tempo sua civilização dura? Quem sobrevive por mais tempo? Vocês ou o Onbu? Essas são algumas das perguntas que o jogo te faz. Apesar das personagens serem fofas e dessas questões apresentadas, a história em si não é tão profunda, ela é mais um jeito de ter um tutorial e explicar o cenário geral.
Eu genuinamente acredito que o Modo História poderia ter uma profundidade maior, mas ela funciona para a proposta.
Jogabilidade
The Wandering Village tem sua jogabilidade separada em três partes bem claras, mas interligadas entre si: A sua civilização, o cuidado com o Onbu e a exploração das áreas ao redor.
A montagem do seu povoado é uma proposta interessante, porque ela acontece no espaço limitado das costas do Onbu. Diferente do comum, que você pode comprar mais espaço para expandir, aqui, não tem para onde ir, o bicho não aumenta de tamanho, não importa qual das quatro variedades dele você escolha. Isso significa que você precisa desenvolver sua cidade de maneira mais ou menos pensada desde o começo, ou vai precisar ficar desmontando e remontando (o que, felizmente, é bem fácil), para encaixar tudo.
Conforme sua população aumenta, as exigências dela também aumentam, e desde sacrifícios serão necessários até decisões difíceis sobre qual o próximo desenvolvimento.
O tutorial do jogo é muito bom, e apesar do nome, não fica segurando sua mão, como normalmente acontece em jogos do tipo. Você pode fazer o que quiser, como quiser, e várias opções dos próximos passos vão aparecendo. Conforme você faz algo específico, avança a história, até que termine o tutorial e entre no modo normal do jogo.
As estruturas do jogo são bem intuitivas, a árvore de desenvolvimentos de pesquisa é fácil de entender, embora feia de ver, mas as atualizações dos prédios são estranhas. Além disso, há pouca variedade estética, o visual do jogo é aquele, e não há muita possibilidade de personalização, fora o layout escolhido e o corpo do Onbu. Ao mesmo tempo, algumas estruturas que você gostaria que tivessem melhorias, como a mina e a madeireira, não têm. Mas apesar disso, a experiência é bem honesta, e ter que lidar com destruição e reconstrução de prédios é algo que te faz planejar melhor observando os futuros passos do seu Onbu.
Dependendo do terreno que o Onbu está, algumas plantações não são possíveis, e você precisa desenvolver formas diferentes de adquirir comida (como montar uma peixaria quando seu bichão está no mar). Isso significa que você não pode simplesmente deixar tudo funcionando sem supervisão, é necessário microgerenciar algumas coisas a cada mudança de ambiente, ou vai ficar sem comida, e seus cidadãos ficarão infelizes e pularão de paraquedas para fora do Onbu para tentar a vida por conta própria.
Com isso, o jogo não fica entendiante, não fica automático, porque estruturas que não conseguem ser usadas, como a peixaria no deserto, devem ser desativadas, para economizar recursos e redirecionar trabalhadores para outras áreas, por exemplo, para cultivar milho e cactos, para ter água e comida nos momentos duros de extrema aridez.
Já a parte do cuidado do Onbu é o que faz o jogo ter seu grande diferencial, e que poderia ser melhor. Você pode optar por ter estruturas que te permitem cuidar dele, fazer carinho, alimentá-lo, curá-lo de venenos, ou pode escolher aquelas que machucam seu dragãozinho, seja disciplinando para que ele obedeça um comando de caminho para ir, seja extraindo sangue e bile dele para produzir coisas para sua população, seja machucando-o removendo espinhas das costas dele para conseguir espaço para novas áreas de construção. Além disso, de tempos em tempos, surgem cogumelos nas costas dele, que você tem que mandar seus habitantes colherem, pois, além de serem um recurso valioso para comida para vocês e para o Onbu, além da construção de coisas, caso ele se decomponha, envenenará o Onbu, o que poderá fazer esporos venenosos surgirem no meio da sua vilinha.
Quando você coloca o zoom no nível que pode ver o Onbu todo, você acessa comandos específicos para ele, que vão sendo acrescentados conforme novas estruturas que se refiram ao Onbu são construídas, ou conforme sua confiança com ele (ou o medo dele por você) cresce. Aí, você consegue controlá-lo para correr, deitar, esperar, andar, comer, entre outras coisas.
Isso te permite evitar áreas perigosas, ou decidir qual caminho você vai seguir nas encruzilhadas possíveis. Nem sempre ele vai te ouvir, às vezes, ele decide por conta própria, se enfia numa floresta de esporos venenosos e resolve dormir ali no meio, morrendo de veneno sem que você possa fazer nada, então, por isso importa muito como sua relação com ele será, e a observação do mapa. Basta tirar todo o zoom, e você vê o mundo ao seu redor, e quais caminhos e perigos estão por vir.
Infelizmente, a profundidade aqui é um pouco perdida, porque, apesar de você não conseguir ter acesso a algumas árvores de desenvolvimento caso o Onbu não confie 100% em você, elas são apenas estéticas. Não há consequências reais quando você pode machucar o Onbu pra extrair substâncias, e depois fazer carinho e tratá-lo para que ele se recupere, negando o dano causado. Seria muito mais interessante se as decisões afetassem realmente o comportamento dele, se ele sacudisse mais quando não está feliz, destruindo prédios, ou se produzisse mais comida nas costas porque ele está exalando hormônios de felicidade.
Apesar disso, as atividades envolvendo o Onbu oferecem entretenimento suficiente para o jogo ser agradável, e isso não ser necessariamente um problema, e a própria natureza do jogo é definida pelas limitações oferecidas por ele, e você consegue saber o nível de felicidade dele pelo jeito que ele move a cabeça enquanto anda.
A parte de exploração envolve mandar equipes de expedição para locais específicos. Sejam florestas, minas, templos antigos ou naufrágios, é assim que você coleta alguns recursos muito específicos e necessários, como água em Oásis nas áreas desérticas, e também coisas importantes que te ajudam a entender o que está acontecendo no mundo. Você também pode encontrar pessoas que pode, ou não aceitar para viverem na sua vila. Essas pessoas vão ter 1/3 de chances de serem saudáveis, 1/3 de estarem doentes e 1/3 de estarem envenenadas, são sempre 3 pessoas, e elas podem vir em qualquer combinação. Sem essas explorações, você não consegue desenvolver certas árvores de pesquisa, mas às vezes, seus exploradores podem morrer ou sofrer acidentes no caminho, então, é sempre um risco.
Além do modo normal, que você vê até onde consegue sobreviver, há dois outros modos: Desafio e Livre.
O modo Desafio consiste em você escolher quais modificadores de dificuldade vai colocar na sua civilização, e tentar sobreviver por 1000 km andados do Onbu. Como comparativo, eu cheguei a 750 km andados em 108 dias de jogo na primeira vez, antes do meu Onbu ser envenenado, e eu não tinha ainda a estrutura que me permitiria cuidar dele, aí, ele morreu. Você pode somar até 15 pontos de condições de desafio (e se conseguir vencer o modo Desafio com 15 pontos, libera o mais lindo dos Onbus), e posso garantir que realmente faz jus ao nome do modo.
Já o modo Livre é uma das coisas mais bem-vindas que eu já vi, e, não sei por que, quase nenhum jogo de construção tem. Nesse modo, você pode escolher jogar como quiser, removendo coisas que normalmente poderiam te dar game over, como insatisfação das pessoas ou possibilidade de morte do Onbu. Você quer só montar sua vila, sem se preocupar com abandono ou morte, e ver até onde você consegue levar seu povo.
Essa variedade de modos, além do fato de que a cada vez que você joga, o caminho do Onbu é diferente, e passará por áreas diferentes em períodos diferentes, faz com que Wandering Village tenha um fator replay muito bom.
A tela de toque não pode ser usada aqui, e leva um tempo até entender como usar todos os botões, mas a adaptação para controle funciona muito bem. Não é um daqueles jogos que você gostaria de ter um mouse (embora no Switch 2, você possa ter xD).
O Livro do Ancião oferecer informações sobre todas as coisas que você já viu e recebeu, além de armazenar suas missões, caso você não as queira poluindo sua tela. Ajuda demais poder saber o que é um recurso e como consegui-lo quando você não consegue construir algo, e nesse ponto, o jogo te cobre.
The Wandering Village oferece um sistema de salvamento automático, além de vários slots para salvar. Eu recomendo que você salve manualmente antes de cada decisão de caminho, para caso algo dê ruim nos próximos passos, e precise voltar. É bem chato esquecer de salvar por um tempão, e quando percebeu, o autosave te prendeu num lugar de onde não tem como escapar.
Parte Técnica
Meus cumprimentos ao chef. The Wandering Village parece um jogo feito para o Switch, não um jogo portado. O estilo de arte feita à mão em 2d com forte influência dos Estúdios Ghibli é lindo e combina muito bem com o Onbu 3D no fundo, e não importa qual grau de zoom você coloca para ver, tudo é bonito e bem feitinho.
Mesmo quando tem muita informação na tela e o nível de zoom está alto, não senti pontos de engasgo, e em nenhum momento, o jogo travou ou fechou. A transição entre os níveis de zoom, inclusive, é muito mais fluida do que imaginei que seria e de qualquer outro jogo que joguei no Switch.
Os sons do jogo são bem imersivos, e passei mais tempo do que o comum com a música do jogo ligada. Meu único lamento sobre isso é que os sons que o Onbu faz não são compatíveis com o animal que ele é. Eu gostaria que de vez em quando, a gente ouvisse rugidos profundos, típicos de um dragão gigante, mas ele faz sons agudos, quase alienígenas. É minha única reclamação sobre a escolha aqui. Eu acho que parte da experiência de viver sobre um animal enorme seria conviver com seus sons.
O jogo tem uma tradução 100% em português e em vários outros idiomas, e dá mais uma lição em grandes produtoras, que acham que não conseguem fazer. Com um orçamento muito mais limitado, várias indies se esforçam para incluir todo mundo na experiência, e a qualidade da tradução aqui é bem boa, inclusive com gírias e adaptações que eu gostei.
Conclusão
The Wandering Village é uma renovação na experiência de construir civilização. Gerenciar um povoado ao mesmo tempo que o animal sobre o qual ele existe é uma experiência divertida, e apesar da pouca profundidade, a variedade de modos de jogo garante centenas de horas possíveis de diversão. Vale demais a experiência.
Análise feita com cópia gentilmente cedida pelo Stray Fawn Studio


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