Já pensou em jogar um anime? Não falo de jogar um baseado em um anime, mas jogar um totalmente original. Wander Stars chega com essa ideia, onde você joga episódios, cria técnicas originais e acontecimentos imprevisíveis. Tudo isso recheado de referências da cultura anime, então me dê a mão e vamos conhecer essa aventura.
O mapa das estrelas
Wander Stars começa com Ringo, uma menina que sonha ser uma campeã de luta Kiai, o esporte mais praticado no universo. Mas um dia, tudo muda com a chegada de Wolfe. Vindo do espaço, ele acaba por acabar com a paz na vida de Ringo na ilha onde vive, já que, sem saber, ela carrega um pedaço do mapa de Wander Star. Dizem que esse mapa leva para um lugar jamais visto, onde muitos segredos podem ser revelados: talvez tesouros e até a origem do universo. Esse mapa pode ser rasgado o quanto quiser, mas suas partes sempre vão tentar se reunir e apontar para o mais próximo, e é isso que trouxe Wolfe, literalmente um lobo solitário até então, ao encontro de Ringo. O problema é que ele não é o único em busca dos pedaços.
Muitas pessoas anseiam pelo mapa de Wander Star, como piratas espaciais. Ringo força Wolfe a levá-la em sua jornada, pois além de ele ter ficado com o pedaço do mapa que estava escondido em seu pingente de telefone, sua avó Anzu revela que seu irmão mais velho desapareceu procurando pela mesma coisa e nunca retornou.
Decidida a reencontrar o irmão, partimos na busca junto com Wolfe e todo treinamento em Kiai que teve com a Avó Anzu.

Enredo muito bom e uma premissa muito boa com altas reviravoltas. De início, parecia que seria uma aventura almejando ser o maior campeão de Kiai do universo, mas tudo isso muda no momento em que Wolfe cai, e em alguns outros momentos. Wander Stars até brinca um pouco com o próprio gênero de RPG, onde começamos indo comprar tempero e no final, bem, isso eu deixo para vocês descobrirem. Nada de spoilers, mas eu posso dizer que é uma temporada curta com apenas 10 episódios, que duram entre uma e duas horas, dependendo de você. A experiência fica ainda mais dinâmica com lutas e eventos aleatórios que, apesar de não serem feitos de maneira procedural, tanto o caminho como as recompensas podem mudar, mas isso é assunto para próxima parte.
Kiai, o esporte mais famoso do universo
Neste universo, a arte marcial Kiai é muito difundida. Ela consiste em usar o poder das palavras para aprimorar suas técnicas. Isso mesmo, lutamos no grito com todo mundo.
A princípio, parece simples, mas é mais complexo do que parece.
As palavras se dividem em ações que são os golpes, modificadores para aumento de força, alcance ou status e elementos que aplicam dano elemental. A ideia é criar golpes usando as palavras nos espaços disponíveis para golpes, e podemos atacar enquanto ainda temos esses espaços disponíveis. Claro que não poderia faltar um sistema de efetividade: fraquezas dão mais dano e te premiam com pontos de ação, bem como a resistência vai dar menos dano, mas para descobrir o que funciona é puramente na tentativa e erro, principalmente em inimigos comuns que mudam suas fraquezas e resistências cada vez que jogamos um novo episódio.

Um sistema bem interessante e que te permite soltar bem a criatividade com as mais de 200 palavras disponíveis, mas tem apenas dois poréns: primeiro não serem dubladas, então fica por nossa conta gritar os ataques, e segundo não ter outros idiomas além do inglês. Embora consiga relevar por ser um estúdio indie, fica a observação.
Mas não pense que é só porque é um RPG que é só sair por aí gritando e distribuindo porrada. Kiak é uma arte marcial, e praticá-la tem suas regras. Aqui não lutamos para matar, mas para quebrar a postura do oponente. Claro que você pode zerar a vida deles, mas além de antidesportivo, se perde os inventivos por encerrar a batalha da maneira justa. E olha: acabar as lutas dessa maneira dá mais trabalho do que só sair por aí batendo em geral. Calcular dano, prever resistência, evitar golpes críticos e gerenciar ações é algo bem diferente do que se vê nos RPGs tradicionais. Aliás, fugir do tradicional é regra em Wander Stars.
Embora Wander Stars se encaixe como RPG, pessoalmente, classificaria como um jogo de tabuleiro em anime, já que andamos por cenários contando casas para parar, onde as mesas sempre mudam e podem variar entre combates, eventos aleatórios e tesouros. Até o próprio sistema de combate parece bem típico de jogos de tabuleiro, principalmente se você enxergar as palavras como cartas na sua mão e as casas de encontro como pilhas de eventos. E o que reforça mais isso é a capacidade de jogar episódios separadamente e com recursos adquiridos à frente.
Apesar de ser feito estilo anime e com artes marciais, infelizmente não, não tem um arco de torneio aqui.

Parte técnica
Wander Stars é pensado em estilo anime do início ao fim, gráfico, cinemáticas, reações e até o texto usa uma fonte e cor características de animações japonesas clássicas, as famosas legendas amarelas em Helvetica. É uma estética muito bonita e, mesmo que tenha uma clara inspiração, não deixa de ter uma personalidade própria, É uma diversão a mais procurar essas origens olhando para cada personagem. Ringo e Anzu claramente são referências a animes shounen de luta como Dragon Ball, Wolfe é inspirado em Cowboy Bebop e séries mais noir, e por aí vai.
Apesar disso, a parte da animação às vezes fica devendo um pouco. Todos os personagens, e isso inclui npcs, têm diversos modelos de reações, mas as batalhas são um tanto estáticas demais, por alguma razão: a maioria dos inimigos não se mexe para atacar e praticamente só mudam quando têm a postura quebrada ou quando são atacados. Isso não é um problema, mas é aquele ponto que poderia ter sido polido um pouco mais pra dar um gostinho a mais de imersão, principalmente em lutas importantes, como as de chefes.
A trilha sonora não fica para trás em referências e também foi montada com muita familiaridade sonora em animes da época dos anos 90: o tema principal é contagiante, o tema de batalha, empolgante, cada personagem principal tem seu tema baseado na sua inspiração, e há trilhas para momentos de tensão e humor. Misturando pop, jazz e um pouco de instrumentos sintéticos, é uma trilha sonora digna de um desenho que passaria no domingo de manhã no Japão. O destaque vai para o próprio tema principal, que é muito bom mesmo.
Falar sobre jogabilidade em rpg de turno é basicamente falar se a navegação de menu é boa ou não, e Wander Stars infelizmente não faz isso muito bem. Apesar de ter como organizar a interface de criação de golpes, ela ainda meio que buga, às vezes tirando o cursor da visão, provavelmente por conta do port para console, já que a versão de pc utiliza o mouse, e a seleção de recompensa após a batalha não parece muito intuitiva. Não impacta a jogabilidade no geral, mas é algo recorrente ao jogar, embora não seja nada que uma atualização não resolva.


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