Imagina ir pra faculdade, mas em vez de aprender as matérias, você precisa passar sua semana enfrentando demônios pra não ir pra prisão, impedir o apocalipse e conseguir se formar. Demonschool é mais ou menos isso, num RPG tático.
Sobre Demonschool
Fundada em 2012, a Necrosoft Games encontrou sucesso cedo, assinando contrato para criar jogos para o PlayStation Mobile, fazendo jogos como Gunhouse e Oh, Deer!. O estúdio também portou Gunhouse para o Windows Phone, além de estar presente no primeiro indie festival do Google. Em toda a sua existência, também fizeram Gunsport e a sequência, Hyper Gunsport, até chegarem a Demonschool, que inicialmente estava listado como um projeto de RPG secreto.
Em maio de 2023, tivemos o primeiro vislumbre do jogo, que seria lançado pela Ysbrid Games, com uma demo jogável na LudNarracon. Daí, foram algumas mexidas até a primeira demo geral em junho do ano seguinte.
O jogo inicialmente seria lançado em setembro deste ano, mas o lançamento de Holly Knight: Silksong fez adiarem para novembro, enquanto trabalhavam em mais minigames e finais que não conseguiram incluir na versão que sairia em setembro. Depois de esperarmos esses meses extras, Demonschool foi lançado no mês passado.
História
Demonschool começa num barco, a caminho da escola. Você assume o papel de Faye, a última filha de uma esquecida linhagem de caçadores de demônios. Criada pelo vô depois da morte dos pais, ela agora vive sozinha no mundo em busca de impedir o Apocalipse, que está previsto para acontecer, segundo a profecia que ela acredita, na virada do milênio.
Depois de colar em Namako, outra descendente de caçadores de demônios (que não sabe nada sobre), ela desembarca na ilha misteriosa onde a escola está, e juntas, elas começam sua jornada acadêmica nada convencional.
Na primeira semana, ela percebe que as atividades são totalmente diferentes do que é esperado: logo de cara, ela precisa destruir uma fita amaldiçoada que mata todo mundo que assiste a ela. Mas para isso, ela precisa entrar num lugar que só grupos com ao menos quatro pessoas podem, o que faz com que a gente adicione ao grupo Destin, um cara tão gente boa que nem parece de verdade, e está sempre pronto para a luta para defender alguém, e Knute, um nerd de filmes (e nerd como um todo) sensível e gentil.
Conforme o tempo avança, você vai acrescentar novas pessoas à sua equipe (14 além de Faye, no total), mas esse é o grupo base por um tempo. Com Faye e Destin, você dá porrada, Namako atordoa os oponentes e os lava pra fora do ambiente, enquanto Knute mantém todo mundo saudável.
Cada personagem é cheia de personalidade, carisma e unicidade, são pessoas que parecem ser pessoas de verdade, com quem você passa a se importar com o tempo, e o jogo apresenta reviravoltas suficientes para te deixar com vontade de continuar e saber o que acontece. Mais importante ainda, se você é daqueles que não gostam de ~woke~, Demonschool não é pra você. É um jogo cheio de pessoas LGBTQ+, começando por Faye, que tem a opção de beijar igualmente meninos, meninas e menines. Tem pronome neutro, tem beijos e carinhos, independentemente de gênero, tem mulher forte, tem coroa, tem mulher musculosa, tem novinho twink, além de múltiplas cores e origens, até mesmo uma personagem com aparente vitiligo existe, então, se você não gosta de representatividade, seria um melhor aproveitamento do seu tempo e dinheiro procurar outro jogo.

A cada período que passa, você pode conhecer mais e mais do seu grupo, melhorar seus relacionamentos, conhecer novas facetas de cada, descolar uns romances por aí e ainda aprender mais sobre o fim do mundo iminente. Além disso, você tem uma base de operações, que é a sede do Clube de Magia Negra (o nome do seu clube estudantil), e essa base pode não só ser decorada com móveis que você compra, ganha ou acha por aí numa pilha de lixo (real), como também tem a opção de mudar completamente o estilo do seu clube, com opções como um café e biblioteca, entre outras.
E a cada semana, uma nova missão, um novo item que precisa ser destruído, porque a população da ilha está cada vez menor, já que demônios têm aparecido, a máfia anda bem ativa (você mal consegue entrar na ilha por causa deles), e muita gente anda sumindo.
A história do jogo é linear e com alguns clichês do terror clássico, mas, tal qual ogros e cebolas, tem mais camadas do que inicialmente parecem, e é ainda mais enriquecida pelas histórias paralelas, que brilham muito.
Entre mulheres que perderam o rosto, demônios que mandam spam por e-mail e um deus antigo que você pode ajudar a voltar a ter poder, há muitas coisas diferentes nessa ilha, muitas histórias acontecendo ao mesmo tempo, o que nos ajuda a lembrar sempre que, enquanto vivemos nossa vida, outras pessoas vivem as delas, e mesmo que sejamos protagonistas (da nossa, no caso), ainda há muita coisa interessante rolando por aí nas outras vidas, é legal descobrir.
Legal também é como até algumas das decisões mais simples podem ter resultados drásticos nas vidas das pessoas da ilha, e é sempre legal ler o jornal na segunda pra ver o que Namako, Knute e mais escreveram sobre tudo o que rolou na semana anterior. Também é uma ótima forma de resumo, caso você volte a jogar depois de um tempo.
O jogo tem 13 finais diferentes, mas dois deles só podem ser vistos no New Game+. A maioria dos finais só vai estar disponível depois que você vir um dos finais padrão ao menos uma vez.
Jogabilidade
Demonschool bebe bastante da fonte de Persona e Persona 2, e tem três aspectos muito claros: a administração da semana, desenvolvimento de relacionamentos e as lutas em si.
[T-06]A sua semana[/T-06]Você consegue ver os próximos dias no calendário, e coisas importantes ficam marcadas. Nisso, você consegue saber quantos períodos ainda terá até certa coisa acontecer, além de acelerar ou não o quanto suas relações crescem, não só com as pessoas do seu grupo, mas também com personagens que ajudam a ambientar o cenário. Algumas atividades se renovam a cada período, como poder cantar no karaoke ou cozinhar, enquanto outras se renovam dependendo do dia ou da semana, como jogar moeda na fonte, fazer carinho no cachorro ou procurar lixo na pilha de descartes do beco.
Cada vez que você escolhe uma atividade que avança a história, você avança também o período do dia, então, caso queira fazer mais coisas, é só fazer tudo o que não avança a história antes de continuar com ela. Depois de passar um período, ele não volta mais. Isso é importante, porque para adquirir novas técnicas, não só você precisa liberá-las, mas também estudá-las. Cada técnica exige de duas a três pessoas estudando pra desbloquear e deixa as pessoas cansadas por alguns dias, então, caso você queira testar uma específica, precisa planejar para conseguir antes da próxima luta importante.
Há também atividades que são liberadas apenas nos fins de semana, como a seleção do filme que Knute assistirá para analisar, e você ter que responder às perguntas de uma prova (é uma escola, afinal de contas), mas não se preocupe, tirando as missões que você escolher fazer, é o período de descanso, porque nada de ruim acontece aos fins de semana.
[T-06]Relacionamentos[/T-06]Na parte de gerenciar relacionamentos, você pode fazer atividades como cantar no karaokê, jogar jo-ken-pô ou cozinhar pra pessoa para subir seu nível de relacionamento com ela. Quando uma barrinha de relacionamento é cheia, você pode desbloquear uma missão especial que vai te contar um pouco mais sobre a pessoa e liberar para ir para o próximo nível. Cada personagem tem um nível máximo de relacionamento, e o que é liberado a cada nível não segue uma lógica. Namako, por exemplo, pode te dar um abraço ou high-five no nível 4, enquanto outras pessoas podem te dar um beijo no 3.
Algumas missões de subir esse nível só ficam liberadas depois de avançar alguns pontos da história. Outras personagens podem melhorar seu nível de amizade lutando juntas, quando há a opção (nem todas as personagens têm amizade pra aumentar). Ter o nível máximo de relacionamento com alguém te dá um bônus de +1 no ataque ao realizarem um ataque conjunto (quando duas personagens estão em lados opostos de um inimigo, e uma delas o ataca). Maximizar também libera alguns finais extras.

[T-06]Combate[/T-06]Mas o ponto principal de Demonschool é seu sistema de combate. Assim que alguma luta começa, o cenário muda, porque agora estamos numa dimensão entre o mundo humano e o mundo demoníaco, e isso é refletido nas construções e outras estruturas distorcidas ao redor. Ele é um RPG tático de grid quadrado (na maioria das lutas, temos algumas variantes conforme avançamos na história), cujo principal diferencial é que as coisas não acontecem em tempo real. Todos os seus turnos são divididos em Fase de Planejamento e Fase de Ação. Na Fase do Planejamento, você vai gastar seus Pontos de Ação da maneira que achar adequada. Nessa fase, você pode rebobinar suas ações sempre que não gostar de algum resultado ou posicionamento final. Após terminar de decidir o que fazer, você vai pra fase da Ação, na qual vê os resultados do que você decidiu fazer, bem como as ações do oponente. Você leva vantagem porque todas as suas personagens agem antes dos inimigos, então, se você matar alguém, ele não vai te atacar.
As personagens são definidas em classes e elementos. Algumas classes dão mais porrada, outras são suporte de alguma maneira, outras misturam um pouco de cada. Os elementos têm suas fraquezas e resistências e podem ser unidos em combos para criar novos elementos. Isso significa que, dependendo de como você montar sua equipe, pode ter uma vitória fácil ou sofrer uma derrota dolorosa se você não levar isso em conta. Você sempre pode recomeçar uma luta e alterar sua escolha de personagens pra ela. É muito divertido testar possibilidades, e algumas personagens têm coisas muito únicas. Como Faye sempre está selecionada. Em algumas missões, há uma segunda personagem obrigatória, isso te força a usar bastante a criatividade, já que só pode levar quatro personagens no total, não importa o quão numerosos sejam os inimigos (tô olhando pra vocês, fantasmas infinitos).
Ao derrotar o número mínimo de demônios necessário de uma luta, você pode mover alguém para a última fileira do mapa e selar os demônios, voltando para o mapa normal e encerrando a luta. Ao final, você recebe uma nota A, B ou C. Para receber nota máxima, você precisa terminar a luta dentro do número de turnos que é definido como alvo e não pode perder ninguém, e caso não goste do seu resultado, você pode recomeçar até conseguir, não há avanço automático. O jogo não tem permadeath: quem morreu volta numa animação divertida ao final da luta, mas se você não deixar ninguém morrer, ganha mais Opalas pra comprar o que precisar, além da nota máxima. Eu acho, mas não confirmei, que ter notas máximas em todas as lutas pode desbloquear algum final extra dentre os disponíveis, mas só vou descobrir na minha próxima run do jogo.
Em alguns pontos específicos, você vai enfrentar chefes de fase, e cada um deles exige uma navegação diferente pelo mapa. Não só eles têm poderes e aparências totalmente diferentes, como obstáculos aparecem. Alguns deles, pra piorar, você tem um tempo limitado para derrotar, ou demônios dominarão o mundo. Ao derrotar o chefe, a história avança.
Uma coisa que achei legal é que lutas que são necessárias para avançar a história podem ser puladas. Isso significa que se você tiver muita dificuldade com algum boss e não estiver conseguindo mesmo passar por ele, você pode só pular a luta. Não terá nenhuma recompensa, mas o jogo age como se você tivesse vencido. Confirmei com os devs que essa opção não afeta em nada os finais do jogo. Existe também a opção de “Quase Invencível” nas opções de jogo, que te permite basicamente que ninguém morra enquanto você vai batendo em todo mundo. Você pode deixar o jogo o quão difícil ou fácil quiser; isso pra mim é sempre um bônus. No fim das contas, as lutas acabam sendo mais um puzzle pra tentar vencer com nota máxima, e quando você passa a enxergá-las assim, elas ficam ainda mais interessantes.
Informação importante: Dá para fazer carinho no cachorro, e o que é melhor: várias vezes na semana. Também dá para brincar de esconde-esconde com o Rei dos Gatos.
Parte Técnica
Se eu tivesse publicado este texto ontem, essa seção teria mais reclamações. Entretanto, saiu o patch mais recente, corrigindo basicamente tudo o que encontrei de problemas no jogo. Ele roda liso na maior parte do tempo. Tive alguns engasgos antes da atualização, mas depois, não mais.
Com o patch testado e aprovado, posso dizer que Demonschool transborda carinho, amor e dedicação em cada parte. O press release do jogo diz que ele tem sua luz e cores influenciadas pelo terror italiano clássico, e que os avatares de personagens são influenciados por mangás clássicos de terror, e isso fica muito claro em toda parte. Eles não citam nomes além de Suehiro Maruo, mas especialmente a parte da ambientação me lembra muito filmes do Argento. A arte no geral é bem legal, uma mistura de sprites 2D pixelados com cenários que simulam 3D e até mesmo mídias diferentes, como esculturas e outras coisas, integradas, criando uma experiência multimídia muito bacana para o ambiente desejado.
Falando em ambientação, a trilha sonora deste jogo é fenomenal. Uma vibe meio anos 70, com vozes, sintetizadores e muito baixo, pra quem gosta desse clima, é um prato cheio. Não há dublagem, mas as coisas acontecem tão freneticamente que eu nem dei falta real.
As opções te permitem escolher como você quer jogar de diversas maneiras aqui. Há como alterar alguns comandos de batalha, velocidade de diálogo, movimento, sensibilidade, além de opções para pessoas daltônicas.
A ajuda está disponível o tempo todo, e ela é muito mais completa do que o de costume, com informações sobre basicamente qualquer aspecto do jogo.
Não há tradução para o português, o que é triste, mas a tradução para o espanhol latino é bem boa, além das outras opções. Sei que se for ter a adição de um idioma, o nosso será o primeiro da lista, mas os devs não sabem dizer se isso um dia vai acontecer. Espero que role, eu achei muito divertidos os diálogos, e até mesmo os trocadilhos foram muito bem traduzidos para o espanhol.
Conclusão
Demonschool virou meu jogo indie queridinho do ano. Com uma história sólida, um elenco diverso de personagens variadas e únicas, além de um modo de batalha com um twist único na fórmula de RPGs táticos, é uma maneira deliciosa de passar o tempo.
Análise feita com cópia gentilmente cedida pela Ysbrid Games
Demonschool
Editora: Ysbryd Games
Desenvolvedora: Necrosoft Games
Tipo de Mídia: Digital
Tamanho do Arquivo: 898 MB
Plataformas:
Opções de Compra:
Nintendo eShop




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